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A régua da honestidade não pode mudar de tamanho conforme o candidato

Rostand Negromonte · 6 de outubro de 2026

Quem usa a corrupção como motivo de voto precisa medir os dois lados com a mesma régua. O PT teve casos reais, e dirigentes do partido foram condenados no Mensalão. As instituições investigaram, julgaram e puniram. O que merece atenção é o que acontece quando a investigação bate na porta de quem se apresenta como a solução.

O Ministério Público do Rio denunciou Flávio Bolsonaro, o ex-assessor Fabrício Queiroz e mais 15 pessoas por rachadinha no gabinete dele na Assembleia Legislativa, entre 2007 e 2018. Os crimes listados foram organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. O processo acabou depois que decisões foram anuladas na Justiça, então ninguém chegou a julgar o mérito. Flávio nega. A Folha de S.Paulo mostrou que ele nunca explicou a origem do dinheiro vivo usado em despesas e na compra de imóveis. Hoje ele é alvo de inquérito no Supremo, conduzido pela Polícia Federal, sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no financiamento do filme Dark Horse, com recursos negociados com o banqueiro Daniel Vorcaro. Não há denúncia nem condenação.

O vice dele, Alfredo Gaspar, também aparece nas notícias. Segundo a imprensa, ele é citado em apuração sobre emendas Pix, com auditoria do TCU apontando suspeita de irregularidades em cerca de R$ 6 milhões enviados a São José da Laje, em Alagoas. A apuração alcança recursos indicados por vários parlamentares e não há condenação. Houve ainda uma acusação gravíssima de estupro de vulnerável, levada ao Supremo por parlamentares do campo adversário. Gaspar sempre negou e se ofereceu para fazer DNA. Nesta terça, dia 6, o ministro Gilmar Mendes arquivou o pedido de investigação, por não ver indícios, a pedido da Procuradoria-Geral da República. Esse caso acabou e não deve ser usado contra ele. Quem discute honestidade precisa respeitar a decisão, do mesmo jeito que cobra respeito às decisões que absolveram o PT.

Agora a questão da criança. Em 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, foi morta com tiros de fuzil enquanto brincava na porta de casa, em Niterói. O policial militar Bruno Dias Delaroli foi denunciado pelo Ministério Público do Rio. Quando a Justiça mandou o caso a júri popular, Flávio Bolsonaro, já senador e registrado na OAB, entrou na defesa e assinou um recurso ao STJ contra essa decisão. O STJ negou, mas o julgamento não aconteceu. Cinco anos depois, a família ainda espera, e o policial responde em liberdade. Ele é acusado, não condenado. Advogado tem direito de defender, e a lei não impede um senador de advogar. A pergunta que a família faz continua de pé. Entre todos os casos possíveis, por que um futuro presidente escolheu esse.

Tem ainda a anistia. Flávio defende perdão amplo para o pai, condenado pelo Supremo por tentar um golpe de Estado, com pena acima de 25 anos. Pede clemência para a própria família e cobra rigor do adversário. O discurso contra a corrupção perde força quando serve só para quem está do outro lado.

Se investigação em andamento basta para condenar um candidato na praça, basta para todos. Se só vale condenação definitiva, vale para todos também. O eleitor honesto escolhe a régua antes de olhar o nome. É assim que se evita votar com raiva e se arrepender depois.

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