Nazaré reclama de um lado e vota do outro
Eu já recebi mais de 2.300 denúncias do povo de Nazaré. Gente sem água, com esgoto na porta, com escola atrasada. Cada uma dessas pessoas me disse que a gestão abandonou o bairro. Eu levei cada caso pra frente, na rua, no órgão, no Ministério Público.
Nove em cada dez pessoas que conversam comigo falam mal da gestão. Na feira, no ponto de moto-táxi, na porta de casa, o assunto é o mesmo. Ninguém precisa me convencer de que o povo está insatisfeito, eu ouço isso todo dia.
Veio a eleição e a votação grande foi dos candidatos da prefeita. Boa parte do que sobrou foi pra gente que também não anda de mãos dadas com o povo. Quem está todo dia no sol, na lama e na fila do posto ficou sem o respaldo da urna. Essa incoerência existe, e eu falo dela sem raiva de ninguém.
Os fatos estão aí. O Ministério Público abriu inquérito sobre nepotismo na prefeitura. O IDEB caiu pra 3,6 e Nazaré ficou em 179º lugar entre 183 cidades de Pernambuco. A lei de férias e 13º foi sancionada pra prefeito, vice, secretários e vereadores, e eu fui o único a abrir mão e não me arrependo.
Todo mundo em Nazaré sabe do peso que a estrutura de cargos comissionados e contratados tem numa eleição. Tem família inteira com a renda ligada à prefeitura, e quem tem filho pra criar pensa no prato de comida em primeiro lugar. Eu entendo esse medo, mas não concordo com esse voto. Voto dado por medo não protege a família. Entrega a escola, o posto e o esgoto do bairro a quem não resolve, e a conta volta pra própria casa de quem votou. O voto é secreto e a lei protege o eleitor.
Tem outra parte que dói mais. Muita gente vota por qualquer motivo e só não vota por reconhecimento. Vota pelo favor, pelo costume, por quem bateu na porta na semana da eleição. Quem trabalhou o ano inteiro recebe o agradecimento no WhatsApp, na rua e vê o voto ir pra outro lado. Quem estava lá em janeiro, quando a água faltou, e em dezembro, quando a chuva derrubou o muro, quem trabalhou o ano inteiro, fica de fora na hora de ser lembrado.
Reconhecer é lembrar de quem estava presente quando o problema chegou, e não só de quem aparece na época da eleição.
Quem votou tem direito de reclamar, sim. Reclamar é direito de cidadão e ninguém perde isso por causa do voto. Mas reclamação sozinha é desabafo. Reclamação acompanhada de voto vira protesto. Gestão nenhuma escuta o povo que reclama de manhã e vota nela de tarde.
Nazaré precisa decidir se quer ser atendida ou só ouvida.