GABINETE DO VICE-PREFEITO Nazaré da Mata

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Nazaré, a cidade que ficou dominada pela realeza.

Rostand Negromonte · 7 de outubro de 2026

Era uma vez uma cidade chamada Nazaré, cercada de canavial até onde a vista alcançava. Todo mundo ali se conhecia pelo nome. Dizem que o nome veio de uma terra santa, onde um carpinteiro e sua família viveram com humildade. Por isso o povo esperava que quem governasse também governasse com humildade.

Quem mandava na cidade era uma rainha branca e rica. Ela chegou prometendo abrir as portas do castelo para o povo. As portas abriram, mas só para a família e alguns escolhidos dela, parentes e compadres que ganharam cargo, cadeira e chave do tesouro. Eram gente de sorriso fácil e coração duro, que media a própria importância pelo medo que causava nos outros.

A rainha era cruel com os súditos e não escondia. Humilhava criado no salão, cortava o pão de quem reclamava e mandava para o estábulo quem levantasse os olhos na hora errada. Os escolhidos faziam igual e faziam pior, porque quem sobe por favor precisa provar todo dia que merece a cadeira.

O estranho é que os servos concordavam com tudo. Quando a rainha falava, balançavam a cabeça. Quando ela castigava um companheiro, desviavam o olhar. E quando alguém de fora criticava o castelo, eram eles os primeiros a defender a coroa. Diziam que a rainha era justa e que o problema estava em quem reclamava.

Numa tarde de sol forte, a rainha reuniu os criados no pátio. Desceu do trono com uma galinha viva debaixo do braço. Diante de todos, começou a arrancar as penas dela, uma por uma. A galinha gritava de dor e os criados olhavam sem se mexer. Quando quase não restava pena, a rainha a soltou. A galinha correu, tremendo, procurando um canto para se esconder.

Então a rainha jogou um punhado de milho aos pés dela. A galinha parou, olhou para o milho e olhou para ela. Voltou devagar e comeu na mão de quem a tinha machucado. Depois andou atrás da rainha pelo pátio inteiro.

A rainha ergueu a galinha e disse em voz alta que o povo era assim. Basta machucar e depois dar um pouco de comida, que ele segue o dono e ainda agradece.

Foi aí que o bobo da corte entrou em cena. Gargalhou mais alto que todos, bateu palmas e gritou que nunca tinha visto sabedoria tão grande. Um dia ele tinha sido bobo de verdade, daqueles que escondem a verdade dentro da piada. Agora era só um homem que ria da dor dos outros para manter a roupa colorida e o prato cheio. Os criados riram junto, com medo de ser os únicos calados.

O capitão do mato estava de pé ao lado da porta, com o caderninho aberto. Anotava quem não riu, quem demorou a bater palma e quem baixou os olhos para a galinha. Antes ele lavava as mesmas panelas dos outros e sabia o nome de cada um. Agora usava isso para entregar os antigos companheiros, e achava que isso o fazia da casa. Naquele dia anotou uma cozinheira velha, que olhou para a galinha com lágrimas nos olhos. Na manhã seguinte, ela já estava no estábulo.

O conselheiro-mor aplaudiu junto com os outros. O guardião do tesouro fingiu que não viu. A conselheira de vestido caro sorriu, porque aquilo também era um recado para ela. E a rainha limpou as mãos no vestido e olhou o pátio com calma. Ela sabia que o medo, bem cuidado, rende mais que o amor.

Mas nem todo mundo no reino ria. Na cidade baixa vivia um homem que ouvia as queixas dos criados e guardava cada uma num caderno. Ele sabia o nome de quem foi humilhado, de quem foi mandado para o estábulo e de quem tinha chorado calado. Quando o capitão do mato soube do caderno, correu a contar. O bobo riu, mas dessa vez a risada saiu curta.

Demorou, mas o reino acordou. Primeiro foi a cozinheira velha, que contou em voz alta o que tinha visto no pátio. Depois um criado repetiu, e outro, e outro. Cada um descobriu que o vizinho sentia o mesmo medo e guardava a mesma dor. O medo, quando é dividido, perde o tamanho. A galinha levantou a cabeça do milho, olhou para a rainha e não voltou mais.

Os criados abriram a cabeça e a voz. Deixaram de balançar o pescoço, de rir sem vontade e de defender quem os machucava. O capitão do mato largou o caderninho, porque já não havia quem entregar. O bobo tirou a roupa colorida e ficou sem plateia. Os escolhidos, um a um, desceram da cadeira e sumiram pelos corredores, porque ninguém mais temia a cara feia deles.

A rainha ficou sozinha no castelo. Tinha ouro nos cofres, joias no pescoço e a maior mesa do reino, mas ninguém para sentar do outro lado dela. Falava e só o eco respondia. Descobriu tarde que o medo que ela cultivou nunca foi lealdade, e que quem obedece de joelhos vai embora quando levanta.

E dizem que em Nazaré, a de antigamente, o filho do carpinteiro ensinava que o maior é aquele que serve. Um reino se mede pelo jeito como trata quem trabalha nele, e não pela altura das muralhas. Um poder que só se sustenta no medo termina na sargeta.

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