GABINETE DO VICE-PREFEITO Nazaré da Mata

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DIREITA E ESQUERDA PODEM CONVIVER. O BRASIL NÃO PERTENCE AO BOLSONARISMO.

Rostand Negromonte · 18 de outubro de 2026

Por Rostand Negromonte - Vice Prefeito de Nazaré da Mata

Direita e esquerda podem viver em harmonia democrática. Isso não significa pensar igual, abandonar convicções ou deixar de disputar eleições. Significa reconhecer que o adversário tem direito de existir, expressar suas ideias, vencer nas urnas e governar dentro da Constituição.

O Brasil precisa dessa convivência. Precisa de uma direita democrática e de uma esquerda democrática, capazes de apresentar caminhos diferentes sem transformar a política em uma guerra de eliminação. Divergir sobre impostos, segurança, costumes ou o papel do Estado faz parte da democracia. Tratar quem discorda como inimigo da pátria ou de Deus ameaça essa convivência.

Por isso, uma distinção precisa orientar o debate atual: a direita não se resume ao bolsonarismo.

A direita existia antes de Jair Bolsonaro e continuará existindo depois dele. Reúne tradições e correntes distintas. O bolsonarismo integra o campo da direita radical, mas não pode se apresentar como proprietário de todos os conservadores, liberais, cristãos, militares ou brasileiros que defendem a segurança e a propriedade privada.

Ser de direita não obriga ninguém a ser bolsonarista. Discordar de Lula não exige fidelidade à família Bolsonaro. E rejeitar práticas autoritárias não transforma automaticamente um conservador em alguém de esquerda.

A democracia exige compromissos que devem estar acima dessas diferenças.

Uma convivência que o Brasil precisa preservar

Nossa história não foi uma sequência de relações harmoniosas. Houve violência, perseguição, exclusão e ditaduras. A convivência democrática foi construída justamente para permitir que divergências profundas fossem resolvidas por eleições, diálogo e instituições.

Também é necessário compreender corretamente o fim da ditadura militar. Setores do regime conduziram uma abertura controlada durante os governos Geisel e Figueiredo. Mas a democracia não foi uma concessão exclusiva dos militares. A pressão popular, a oposição política, os movimentos sociais e as entidades civis foram fundamentais. As Diretas Já mobilizaram o país, e a transição reuniu forças diferentes contra a continuidade do autoritarismo.

A lição desse processo permanece atual. Pessoas que discordam sobre muitos assuntos podem trabalhar juntas para preservar a liberdade.

A harmonia democrática não exige ausência de conflito. Exige limites para o conflito. Quem perde uma eleição continua tendo direitos. Quem vence recebe um mandato temporário, sujeito à fiscalização. Nenhum resultado eleitoral transforma um governante em dono do país.

É nesse ponto que o bolsonarismo precisa ser questionado. Quando a fidelidade ao líder passa a valer mais do que os princípios, a divergência vira traição. Até antigos aliados podem ser descartados por exercerem o direito de discordar.

As críticas vindas de dentro

Santos Cruz e Otávio Rêgo Barros ocuparam cargos no governo Bolsonaro e fizeram críticas públicas depois de deixá-los. Maynard Santa Rosa classificou como imprudente a participação do então presidente em uma manifestação que defendia intervenção militar e fechamento de instituições. Essas posições mostram que as críticas a Bolsonaro ultrapassam o campo da esquerda.

O caso de Luiz Henrique Mandetta também é significativo. Sua saída do Ministério da Saúde aconteceu após divergências públicas sobre a condução da pandemia. Antes da demissão, ele reafirmou seu compromisso com o caminho da ciência. O conflito envolvia decisões sanitárias e a autonomia técnica necessária para enfrentar uma emergência de saúde.

Essas pessoas não se tornaram automaticamente esquerdistas porque discordaram de Bolsonaro. Esse é o ponto central: ninguém deveria precisar escolher entre suas convicções e o direito de questionar um líder.

O crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro exige que essa discussão seja feita com clareza. Ele deve responder por seus próprios atos. Mas, ao reivindicar a herança política do pai, precisa esclarecer quais práticas pretende continuar e quais está disposto a rejeitar.

Uma apresentação mais moderada só tem valor quando corresponde a compromissos concretos.

Deus acima de todos?

A fé merece respeito. Para milhões de brasileiros, ela representa acolhimento, esperança e disposição para cuidar do próximo. Por isso, não deveria ser usada para transformar eleições em testes de obediência religiosa.

Em 2022, Jair Bolsonaro apresentou a disputa eleitoral como uma luta entre o bem e o mal. Michelle Bolsonaro também empregou a ideia de guerra espiritual em manifestações de campanha. Nesse enquadramento, o adversário deixa de ser alguém com propostas diferentes e passa a ser tratado como uma ameaça à própria fé.

O risco é evidente. Se um candidato se apresenta como representante de Deus, qualquer crítica pode ser recebida como uma ofensa religiosa. O debate sobre políticas públicas perde espaço para o medo.

Cristãos têm pleno direito de participar da política e de votar de maneiras diferentes. Nenhum partido é dono do cristianismo. Nenhuma liderança religiosa ou política pode substituir a consciência do eleitor.

O lema “Deus acima de todos” também precisa ser confrontado com o tratamento dispensado à vida humana.

Em Rio Branco, em 2018, Bolsonaro simulou uma arma com um tripé e disse: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. Depois, afirmou que se tratava de uma hipérbole e negou intenção de matar. Essa explicação deve ser registrada. Mas permanece a responsabilidade por utilizar o fuzilamento de adversários como linguagem de campanha.

Em 2016, repetiu que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. Em entrevista de 1999, manifestou apoio à tortura. Esse histórico exige mais do que a justificativa de que tudo seria uma maneira exagerada de falar.

Quem invoca Deus como fundamento de sua autoridade política precisa responder pela distância entre essa invocação e a exaltação da violência.

O problema se estende a outras lideranças. Em outubro de 2025, diante de uma publicação que questionava a eficácia de matar integrantes do tráfico, Nikolas Ferreira respondeu: “É só matar os outros 120”. A fala ocorreu após uma operação policial de elevada letalidade no Rio de Janeiro.

Combater o crime organizado é uma obrigação do Estado. A celebração de mortes, porém, não substitui investigação, inteligência e proteção da população e dos policiais.

Em novembro de 2024, ao comentar a investigação de um plano para matar autoridades, Flávio Bolsonaro escreveu: “Por mais que seja repugnante pensar em matar alguém, isso não é crime”. O senador argumentava sobre os requisitos de uma tentativa de homicídio. Preservar esse contexto é necessário. Também é legítimo questionar sua escolha de enfatizar esse argumento diante da gravidade do plano investigado.

Brasil acima de tudo?

O patriotismo deve ser demonstrado quando o interesse nacional entra em conflito com interesses pessoais.

Em agosto de 2025, Eduardo Bolsonaro relacionou a pressão econômica dos Estados Unidos ao tratamento judicial dado ao pai. Em entrevista à Reuters, descreveu as tarifas como um “remédio amargo” e vinculou a saída do conflito a concessões do Supremo.

O Brasil deve manter boas relações com os Estados Unidos e com outras nações. Mas buscar pressão estrangeira sobre instituições brasileiras exige uma explicação de quem proclama colocar o país acima de tudo.

Trabalhadores, produtores e empresas não podem ser tratados como instrumentos de uma disputa familiar. A soberania precisa valer também quando as instituições tomam decisões contrárias ao político de nossa preferência.

Um patriota pode discordar de uma decisão judicial e defender sua revisão pelos caminhos democráticos. A autonomia do país não deve depender de quem está sendo investigado ou julgado.

A bandeira pertence a todos os brasileiros. Também pertence a quem vota na esquerda, a quem vota na direita e a quem rejeita os dois campos.

Família e liberdade para quem?

Defender a família exige compromisso com alimentação, moradia, emprego, escola, saúde e segurança. Essa defesa precisa aparecer nas políticas públicas e na proteção cotidiana das pessoas.

Um conservador pode valorizar sua família sem hostilizar famílias diferentes. Pode defender sua fé sem negar direitos a quem tem outra religião. Pode cobrar segurança sem transformar a violência em identidade política.

A mesma coerência é necessária quando se fala em liberdade.

Em agosto de 2025, Zé Trovão disse a Alexandre de Moraes: “Nós vamos acabar com a sua vida”. Minutos depois, retirou a declaração, afirmando que pretendia combater injustiças. Seu gabinete negou intenção de ameaça. O recuo precisa ser considerado, mas não apaga a gravidade da linguagem utilizada na Câmara.

Em dezembro daquele ano, Paulo Bilynskyj afirmou que tinha vontade de “encher de porrada” adversários, acrescentando que não o faria em respeito aos seus eleitores. Mesmo com a ressalva, o vocabulário da agressão física voltou a ocupar o debate parlamentar.

Em julho de 2023, Júlia Zanatta declarou, durante a inauguração de um clube de tiro, que “todo poder emana do cano de uma arma”. Uma democracia precisa afirmar o contrário dessa lógica de força: a autoridade política deve depender da vontade popular e ser exercida dentro de limites institucionais.

Esses episódios não autorizam julgar todos os eleitores bolsonaristas como violentos. Autorizam cobrar responsabilidade de lideranças que escolheram utilizar essa linguagem.

A liberdade precisa proteger também quem discorda, protesta, fiscaliza e derrota o grupo governante nas urnas.

Instituições podem ser criticadas. Nenhum tribunal está acima do debate público. Mas a crítica democrática exige compromisso com os caminhos legais e com a integridade das pessoas.

Em 2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores em que atacou o sistema eleitoral. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF o condenou no processo da tentativa de golpe de Estado. Esses fatos não podem ser reduzidos a uma divergência comum sobre propostas de governo.

Valores não pertencem a um movimento

A história mostra que palavras respeitáveis podem servir a projetos autoritários. “Deus, Pátria e Família” foi lema do integralismo brasileiro e integrou o repertório da ditadura de Salazar, em Portugal. A coincidência não torna todos os movimentos iguais. Ela demonstra por que precisamos examinar práticas, além de slogans.

O critério deve ser o mesmo para qualquer corrente política: aceita perder? Respeita os direitos do adversário? Admite investigar seus aliados? Reconhece limites para o próprio poder?

A direita democrática não precisa aceitar o bolsonarismo como seu destino. A esquerda democrática também precisa demonstrar, diariamente, seu compromisso com essas exigências.

Por isso, um eleitor conservador pode votar em Lula e continuar conservador. Pode considerar essa a melhor escolha em determinada eleição e, no dia seguinte, cobrar o governo ou discordar de suas medidas. Seu voto não exige conversão ideológica.

Neste segundo turno, José Aníbal, ex-presidente do PSDB, declarou apoio à chapa Lula-Alckmin. Mário Covas Neto e outras pessoas ligadas à tradição tucana também manifestaram apoio. Soraya Thronicke, eleita em 2018 como aliada de Bolsonaro, reafirmou seu apoio a Lula. Essas escolhas mostram que trajetórias diferentes podem convergir sem apagar suas diferenças.

Há também quem rejeite ambos os candidatos. Renan Santos descartou apoiar Lula, mas afirmou enxergar maior risco de concentração de poder numa vitória de Flávio. Essa posição não é apoio ao PT. É mais uma demonstração de que rejeitar o bolsonarismo não equivale a aderir à esquerda.

Sou de esquerda e defendo o voto em Lula. Isso não coloca seu governo acima de críticas nem elimina meu dever de cobrar resultados.

Respeito quem pensa diferente. Quero viver em um país onde a direita e a esquerda possam conviver em harmonia democrática, disputar projetos com firmeza e reconhecer a dignidade uma da outra.

Essa convivência exige que nenhuma liderança transforme sua família em instituição nacional, sua candidatura em missão divina ou seus adversários em inimigos a eliminar.

A direita não pertence a Bolsonaro. A esquerda não pertence a um único partido. Deus não pertence a uma campanha. E o Brasil pertence a todos nós.

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